Podcast: Poema De Parmênides

Parmênides. Da Natureza

Tradução do Professor Dr. José Gabriel Trindade Santos. Modificada pelo tradutor.
Primeira edição, Loyola, São Paulo, Brasil, 2002.
Original em grego, conforme o texto estabelecido por J. Burnet.

Leitura, captação de aúdio, tratamento de aúdio e edição: Abraão Carvalho

Trilha sonora de fundo: Ravi Shankar – “Raga Charukauns”

Duração: 15min

@ 2015

Podcast: Conferência “Filosofia sem Ontologia fundamental”, Prof. Dr. Daniel Omar Perez (UNICAMP)

Podcast com aúdio do trecho final na Conferência “Filosofia sem Ontologia fundamental”, do Prof. Dr. Daniel Omar Perez (UNICAMP), que ocorreu no dia 5 de março de 2015 no Auditório do IC II-UFES (Universidade Fereral do Espírito Santo).

Duração: 25min

Podcast: Nietzsche – Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra – Moral

Neste post disponibilizamos podcast que produzimos contendo leitura do célebre texto do filósofo Nietzsche “Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral”, de 1873.

Para baixar e ouvir o podcast click aqui:

Para acompanhar a audição do podcast, disponibilizamos também o livro digital contendo o referido texto, compreendido entre as páginas 51 e 60 da coleção “Os Pensadores”, é só clicar abaixo:

Nietzsche – Coleção Os Pensadores

Cartesius – Trecho do filme de Rossellini de 1974

Filme dirigido por Roberto Rossellini, neorealista italiano, e lançado em 1974, promove uma importante obra cinematográfica que põe em relevo as ideias do filósofo, físico, matemático e fisiologista francês René Descartes (1596-1650). Neste trecho de 11min, disponibilizado na rede, alguns de principais traços de seu pensamento são elucidados conforme roteiro temático a seguir:

– Defesa do Cogito por Descartes

– Relação entre a ideia de Deus e as formas matemáticas

– Fé X Razão. Na problemática da ideia de Deus

– Verdade

– Das coisas que pertencem ao espírito: ideias

– Confusas e misturadas com as ideias: coisas sensíveis

– Primeira e principal razão: Deus e Alma

– Distinção das propriedades e qualidades do espírito e daquelas do corpo

– Impressão do livro “Meditações sobre a filosofia primeira”

– Áreas de estudo de Descartes: Geometria e Matemática, Ótica e Fisiologia. “Uma nova maneira de filosofar”, Existência de Deus

– Alma humana, que difere do corpo

– Substância finita: corpo

– Substância infinita: Deus

– Substância infinita como fundamento ontológico da gênese de toda substância finita (corpo)

– Notícia da morte do pai de Descartes

– Pensamento que deseja “apagar” os vestígios dos sentidos. E apagar também pensamentos de todas as imagens corpóreas e entreter-se apenas consigo mesmo

– Alma que pensa: alma que duvida, afirma, nega, conhece poucas coisas e ignora muitas

– Uma realidade que pensa: mas de onde vem esta certeza?

A filosofia tem que servir para algo?

Abraão Carvalho[1]

 

pra quem serve teu conhecimento

A tentativa (o movimento) de Abraão Costa Andrade [2] em seu breve artigo com o nome-problema “Para que serve a filosofia?”, consiste em problematizar sobre o sentido histórico de nosso hábito em atribuir dignidade hierárquica às coisas somente em função de sua utilidade prática imediata. Ora, mas qual o sentido de atribuirmos um valor mais elevado somente àquelas coisas às quais podemos utilizar na vida prática imediatamente? Dito de outro modo: as coisas só têm valor se puderem ser utilizadas imediatamente na vida prática?

Ora, indicar um valor, trata-se aqui de ordenar, por estes ou aqueles outros motivos, uma certa hierarquia. A que hierarquia estamos nos referindo? A uma hierarquia de valores. Ora, o que nos leva a tomar estas ou aquelas decisões? Decidir é separar, separar ordenando desde uma certa hierarquia. O que nos leva a indagar: porque então, à utilidade imediata das coisas na vida prática atribuímos um mais elevado valor? De todo, por lançarmos a uma posição inferior tudo aquilo que não remete a uma utilidade prática imediata, como o campo dos afetos ou dos valores éticos, ou até mesmo a filosofia, e lançando em uma posição superior todo o universo dos objetos materiais ou saberes práticos, dada a sua necessidade prática e concreta, como um copo, um martelo, um “curso técnico”, etc.

Nesta perspetiva, nos parece que quando nos voltamos para a filosofia, o que nos frustra, nos perturba e nos atormenta, é justo o espanto em não encontrarmos uma tal utilidade prática imediata à bendita ou maldita da filosofia! Nesta medida, a viciada pergunta: para que serve isto? Para que serve aquilo? Quando nos indagamos sobre a utilidade dos objetos e dos saberes técnicos, encontra sua incongruência [3] ou deslocamento quando nos perguntamos desesperadamente para que serve a filosofia!

Ora, quando dissemos que a filosofia serve para isto ou aquilo, este “isto” não dá conta de determinar o horizonte da filosofia, ou mais precisamente, do filosofar, ao passo que o “isto” próprio ao olhar filosófico desdobra-se em uma infinidade de determinações que se sobrepõem umas às outras, posto que no movimento de determinar o “isto” para o qual a filosofia “serve” imediatamente, já nos escapa aquele determinar unívoco ao qual estamos habituados quando nos referimos ao mundo dos objetos sensíveis e às finalidades dos diferentes modos de saber técnico.

Contudo, do mesmo modo que nos indagamos para que serve a filosofia, poderíamos, antes, nos perguntar se em nosso raio histórico, em nossa época, dita moderna, atribuímos valor e dignidade hierárquica às coisas que não têm utilidade prática imediata. Dito de um modo mais preciso, algo que não tem utilidade prática imediata tem algum valor?

Por mediação do embotar que é o hábito, aquilo que nos habituamos sem nos darmos conta como aconteceu às nossas vidas, somos conduzidos, sorrateiramente ou materialmente, a nos seduzirmos pela ideia de que as coisas realmente só têm algum valor se tiverem realmente uma utilidade prática! Ora, quem seria o baratinado a dar algum valor, de quebra mais digno, a algo que não tem utilidade na vida prática imediata e cotidiana? Seria este um desvairado, uma aberração do resultado das mais populares das normas sociais e culturais vigentes? De todo, interessa-nos agora, demarcar outro problema correlato ao problema em identificar uma tal utilidade à filosofia, a saber, o que significa algo ter sua utilidade prática?

Retomemos o exemplo dos objetos do mundo sensível, aqueles que na ótica de Kant nos afetam por mediação dos sentidos, da sensibilidade, alto, baixo, maior, menor, quente, frio, ruído dissonante ou límpido, etc. Esta capacidade de determinação da consciência através dos sentidos, enquanto saber, segundo Kant, consiste sobretudo em um afetar que nos direciona desde uma reação à manifestação dos objetos, de modo que nos faça tomar esta ou aquela atitude, que é levada a cabo desde nossa habilidade em diferenciar, relacionar e separar as coisas, umas das outras. Aproximar ou se distanciar do quente ou do fogo de acordo com as circunstâncias, por exemplo. Ora, com isto queremos demarcar que existem objetos do mundo material e sensível que encontram no pensamento uma certa “correspondência” entre nome e coisa. Isto, a coisa, encontra-se com seu nome, certo objeto de forma retangular no qual se serve a comida, encontra-se com o seu nome, maturado no percurso da tradição, a saber, mesa.

Todavia, existem aquelas ideias e noções que não encontram um objeto no mundo material e sensível. Ora, a estas ideias, por não encontrarem repouso na realidade material percebida pelos sentidos, pela sensibilidade, podemos desde já, apenas por esta constatação, tratar como inúteis, sem utilidade prática? Já que seus princípios e definições não encontram lugar na transformação material e objetiva da realidade? Ora, mas de que distinção estamos tratando? Da distinção entre aquilo que tem utilidade prática imediata e o seu oposto, o que não tem utilidade prática corriqueira, e o nosso problema inicial, situar daquele ou daquele outro lado, a posição da filosofia. Afinal de contas, a filosofia tem ou não tem utilidade prática?

Para nos situarmos diante de tamanho problema, nos aproximemos de algumas de nossas noções em relação ao desdobramento para o pensar o vínculo e distinção entre pensamento e prática, ou em outros termos, pensamento e ação. Ora, estamos habituados a ligar de um modo fundado na tensão entre opostos quando nos referimos ao sentido de pensamento e ao sentido de ação. Pensar, de acordo com nosso hábito, é o oposto de agir. A ação preserva um campo totalmente distinto em relação ao pensamento, que por vezes tomamos como a negação do agir. Pensar não é agir! Podemos desesperadamente afirmar afoitos por convulsões que alteram a realidade existente.

Todavia, se permanecemos nesta perspectiva, a saber, a de que pensar não é agir, quando nos referimos à filosofia, podemos afirmar desajustadamente que ela não sirva para nada!! Pois não encontra seu objeto correspondente na realidade como o encontra a determinação e ligação entre o nome mesa com o seu objeto sensível correspondente. A filosofia, na extensão dos objetos do mundo sensível ou material não encontra justo a sua correspondência, na medida em que não serve imediatamente para isto ou aquilo. No que se refere àquele modo de vida entregue ao suprir as demandas das necessidades materiais mais imediatas, a filosofia aparece como carente de utilidade prática, ao passo que no movimento dos negócios o fim último trata-se da utilidade prática das atividades de permuta e negociação.

Ora, mas se nos rebelarmos em relação à ideia de que pensar não é agir, procurando situar a interligação ou reciprocidade entre pensar e agir, indicando deste modo que o pensar, por orientar os rumos da ação, consiste justo em um modo de agir, chegamos à constatação de que pensar é também um agir. À indicação de que pensar é agir, deixamos de lado o desprezo em relação àquelas coisas que não têm utilidade prática imediata, pois na medida em que lançamos o pensamento ao campo da ação humana, o pensamento pode ganhar contornos de utilidade prática, ao passo que o pensamento demarca o seu percurso por mediação de problemas. O aparecimento de problemas lança o pensamento às suas convulsões, que se inscrevem na tentativa de dar soluções a estes problemas.

Ora, viver significa ser afetado por problemas, aquecimento global, AIDS, clonagem, desemprego, cultura de massa, necessidades imediatas da vida, violência, diante de tais problemas, o pensamento não pode pedir licença sorrateiramente e sair de fininho como quem diz: “isso não é comigo.” Sermos afetados por problemas no percurso da vida indica-nos a necessidade histórica de agir por mediação do pensar, que é agir.

Se percorrermos esta perspectiva, a de que pensar é agir, que tem sua dinâmica no sobrevir de problemas que nos afetam, filosofia ganha sua “utilidade”, ao passo que o movimento de ser afetado ou provocado por problemas que brotam do processo histórico da realidade, desertificação, trabalho, violência policial, nos remete ao decidir diante destes mesmos problemas, ao passo que decidir é separar desde uma hierarquia, separar que se abre desde um relacionar por mediação de uma distinção.

Um contorno mais preciso acerca da relação histórica entre pensar e agir indica-nos o filósofo Hegel: “O pensamento é um produto não menos que vida e atividade de se produzir a si próprio”[4].  Esta atividade de se produzir a si próprio em sua tensão com a realidade, dito em outros termos, problemas que nos afetam, aquecimento global, reconhecimento, alternativas energéticas, cultura, ciência, convenções políticas e morais, indica-nos do mesmo modo o seu oposto, a saber, a negação do existente, ao passo que produzir na ótica de Hegel remete-nos ao seu oposto, destruir. Esta atividade de se produzir a si próprio, segundo Hegel:

“… contém o momento essencial duma negação, já que produzir é também um destruir. A filosofia, ao produzir-se a si própria, toma o natural como o seu ponto de partida para o superar. (…) O espírito apenas ultrapassa a forma natural, passa da moralidade imediata e do impulso da vida ao refletir e ao conceber. Deste modo, fere e derruba esta forma real e substancial de existência, esta moralidade e esta fé, e inicia o período da destruição.”[5]

Nesta direção, a filosofia aparece como uma exigência histórica, como uma necessidade histórica, ao passo que realiza sua dinâmica desde aquela tensão entre o produzir a si próprio e os problemas que nos afetam, de modo que as formas de organização da cultura, da política, da natureza, da religião, da família, da província, não mais satisfazem. A filosofia aparece então quando determinados valores culturais encontram-se com sua crise, sua decadência, sua ruína, sua corda bamba, seu abismo. Segundo o filósofo Hegel, a filosofia aparece na história “em tempos infortunados[6] para o mundo e de decadência na vida política”, quando os antigos sistemas religiosos e formas de cultura, começam a ser minados “por um processo de dissolução e renovação.” [7]

De todo, é preciso demarcar que este produzir a si próprio a partir da tensão com o real, com os problemas que nos afetam, que é também destruir – “produzir é também destruir” -, indica-nos um pensar por si próprio até as suas últimas conseqüências, ao passo que segundo Hegel, “a ninguém é dado pensar por outrem”[8]. E é justo neste sentido que Abraão C. Andrade encontra uma mediação para a tensão entre o produzir a si próprio por mediação do real, dos problemas que nos afetam no percurso da história. A saber, segundo este outro filósofo, a filosofia aparece como um “desconfiômetro” [9], como um instrumento de ação, ao passo que pensar é agir, do mesmo modo que é produzir que é também destruir, exorcizar fantasmas, arcaísmos.

Deste modo, a filosofia aparece como aquele “desconfiômetro” ativado “para não engolirmos a primeira certeza que nos oferecem como sendo uma verdade indiscutível”[10]. Neste sentido, a filosofia serve, por exemplo, para desconfiarmos de que a importância ou dignidade hierárquica de algo está em sua utilidade prática imediata. Ora, feito este percurso meus caros, pensar por si próprio não tem utilidade prática?

Notas:

[1] Especialista em Informática na Educação (Instituto Federal do Espírito Santo). Licenciado em Filosofia (Universidade Federal do Espírito Santo). Professor de Filosofia (Secretaria de Educação do Estado do Espírito Santo). Tutor à Distância da Licenciatura em Filosofia (Núcleo de Ensino à Distância da Universidade Federal do Espírito Santo). Email: delasoulbeat@gmail.com

[2] Poeta, ensaísta, atualmente é professor de Filosofia da UFRN.

[3] Incongruente – adj. m. e f. Que não é congruente, que não condiz, que não convém; incompatível, impróprio. (Dic – Michaelis – UOL – digital)

[4] b) O início na história da exigência filosófica (p. 416) – In: Introdução à história da filosofia, Capítulo B) Relação da filosofia com as outras partes do que se pode saber. F. Hegel. Tradução de Orlando Vitorino. Os pensadores. Círculo do Livro. Editora Nova Cultural. 1996.

[5] Hegel, Introdução à história da filosofia, p. 416.

[6] Infortunado: adj. Desventurado, infeliz, desgraçado. – Dicionário Michaelis – UOL (digital)

[7] Hegel, Introdução à história da filosofia, p. 417.

[8] Idem, p. 422.

[9] Abraão Costa Andrade. Para que serve a filosofia? – Revista Discutindo Filosofia – p. 12.

[10] Idem.

Referências:

Costa Andrade, Abraão. Para que serve a filosofia? In: Revista Discutindo filosofia. Editora Escala Educacional. Edição 01. São Paulo/SP, 2005.

Hegel, G. W. F. Introdução à história da filosofia. Tradução de Orlando Vitorino. Os pensadores. Círculo do livro. Editora Nova Cultural, 1996.

Kant, I. Primeira parte da doutrina transcendental dos elementos – Estética transcendental. In: Crítica da Razão Pura. Tradução de Valério Rohden e Udo Moosburguer. Os pensadores. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1996.

 

Questões propostas:

  1. De acordo com os três primeiros parágrafos do artigo “A filosofia tem que servir para algo?” responda: O que significa atribuir valores às coisas?
  2. Leia a passagem de Aristóteles em sua “Metafísica” e em seguida procure realizar um comentário a respeito dos temas levantados:

“E à medida que mais e mais artes iam sendo descobertas, algumas ligadas às necessidades da vida e outras à recreação, os inventores destas últimas eram sempre considerados mais sábios que os daquelas, porque seus ramos de conhecimento não visavam a utilidade. Daí, quando todas as descobertas deste tipo haviam sido plenamente desenvolvidas, inventaram-se as ciências que não se relacionam nem ao prazer nem às necessidades da vida, e primeiro naqueles lugares onde os homens gozavam de tempo livre. Assim, as ciências matemáticas surgiram na região do Egito, porque ali a classe sacerdotal tinha tempo livre.”

  1. Responda de acordo com o parágrafo 7 do texto “A filosofia tem que servir para algo?”: Qual o sentido de “correspondência” entre os pares de relações entre os objetos do mundo material e sensível/ e pensamento; e a relação nome/coisa.
  2. Leia a passagem seguinte e responda: “Quando se pensa não se está agindo? E quando estamos entregues ao mundo das ações não estamos pensando?”

        De acordo com a visão filosófica, agir é totalmente diferente de pensar? Justifique procurando explicar a relação circular e recíproca entre pensamento e prática.

         5.De acordo com a linguagem filosófica qual o sentido da palavra problema?

  1. Leia os últimos parágrafos do texto “A filosofia tem que servir para algo?”, que tratam sobre o filósofo Hegel, e responda: A) Segundo Hegel: “O pensamento é um produto não menos que vida e atividade de se produzir a si próprio. (…) já que produzir é também um destruir.” Qual o sentido desta atividade de se produzir a si próprio no percurso da história indicar também um destruir? B) Segundo o filósofo Hegel, a filosofia aparece na história em que contexto?

Atividade 3º ano ensino regular junho 2014 – Texto em espanhol nº3

Julien-Offray de la Mettrie El hombre máquina

EL HOMBRE-MÁQUINA

¿Es aquello el rayo de la esencia suprema,

que se nos pinta tan luminoso?

¿Es aquello el espíritu que ha de sobrevivirnos?

Nace con nuestros sentidos, crece, se debilita como ellos.

¡Ay! perecerá igualmente.

No basta que un sabio estudie la naturaleza y la verdad; debe atreverse a decirla en favor del pequeño número de los que quieren y pueden pensar; pues a todos los que son voluntariamente esclavos de los prejuicios les es tan imposible alcanzar la verdad, como a las ranas volar. Reduzco a dos los sistemas de los filósofos sobre el alma del hombre. El primero y el más antiguo es el sistema del materialismo; el segundo es el del espiritualismo. Los metafísicos que han insinuado que la materia bien podría tener la facultad de pensar, no han deshonrado su razón. ¿Por qué? Tienen una ventaja (pues ésta es una), en haberse expresado mal. En efecto, preguntar si la materia puede pensar, sin considerarla de otro modo que en sí misma, es preguntar si la materia puede marcar las horas. Se ve de antemano que evitaremos este escollo, con el que Mr. Locke ha tenido la desdicha de tropezar. Los leibnicianos, con sus mónadas, han construido una hipótesis ininteligible. Más bien han espiritualizado la materia, en lugar de materializar el alma.

¿Cómo se puede definir un ser, cuya naturaleza no es absolutamente desconocida? Descartes, y todos los cartesianos, entre los cuales se incluyó hace mucho tiempo a los malebranchistas, han cometido la misma falta. Han admitido dos sustancias distintas en el hombre, como si las hubieran visto y contado. Los más sabios han dicho que el alma sólo podía conocerse a través de las luchas de la fe: sin embargo, en calidad de seres razonables, han creído poder reservarse el derecho de examinar lo que la escritura ha querido decir con la palabra Espíritu, de la cual se sirve al hablar del alma humana; y si en sus investigaciones, no están de acuerdo sobre este punto con los teólogos, ¿acaso lo están éstos más entre sí sobre todos los demás? He aquí en pocas palabras el resultado de todas sus reflexiones.

Si existe un Dios, tan autor es de la naturaleza como de la revelación; nos ha dado la una para explicar la otra; y la razón para conciliar ambas. Desconfiar de los conocimientos que se pueden extraer de los cuerpos animados es considerar a la naturaleza y la revelación como dos contrarios que se destruyen; y, por consiguiente, es atreverse a sostener esta absurdidad: que Dios se contradice en sus diversas obras, y nos engaña. Si existe una revelación, ésta no puede desmentir la naturaleza. Por la naturaleza sola, se puede descubrir el sentido de las palabras del Evangelio, cuyo verdadero intérprete es únicamente la experiencia. En efecto, los otros comentaristas, hasta aquí, no han hecho más que enturbiar la verdad. Vamos a apreciarlo a través del autor del Espectáculo de la Naturaleza. «Es sorprendente, dice a propósito Mr. Locke, que un hombre que degrada nuestra alma hasta creerla un alma de barro, se atreva a establecer la razón como juez y árbitro supremo de los misterios de la fe; pues, agrega, ¿qué idea asombrosa se tendría del cristianismo, si se quisiera seguir a la razón? ».

Además de que estas reflexiones no aclaren nada en relación a la fe, constituyen tan frívolas objeciones contra el método de quienes creen poder interpretar los Libros Santos, que casi me avergüenza perder el tiempo en refutarlas. 1.º La excelencia de la razón no depende de una gran palabra carente de sentido (la inmaterialidad); sino de su fuerza, de su magnitud, o de su clarividencia. Así, un alma de barro que descubriera, y como de ojeada, las relaciones y las consecuencias de una infinidad de ideas, difíciles de captar, evidentemente sería preferible a un alma necia y estúpida, que estuviera compuesta de los elementos más preciosos. No es ser filósofo, enrojecer con Plinio por la miseria de nuestro origen. Lo que parecía vil, es aquí la cosa más preciosa, y por la que la naturaleza parece haber puesto más arte y más ingenio. Pero así como el hombre, aun cuando viniera de una fuente todavía más vil en apariencia, no dejaría de ser el más perfecto de todos los seres; cualquiera que sea el origen de su alma, si es pura, noble, sublime, es un alma bella, que hace digno de respeto a quien quiera que esté dotado de ella.

La segunda manera de razonar de Mr. Pluche, me parece viciosa, incluso en su sistema, que es un poco producto del fanatismo; pues si tenemos una idea de la fe, que sea contraria a los principios más datos y a las verdades más indiscutibles, es preciso creer, en honor de la revelación y de su autor, que esta idea es falsa; y que no conocemos aún el sentido de las palabras del Evangelio. Una de las dos cosas; o todo es ilusión, tanto la misma naturaleza como la revelación: o sólo la experiencia puede dar razón de la fe. Pero ¿hay alguien más ridículo al respecto que nuestro autor? Imagino escuchar a un peripatético, que dijera: «No se debe creer en la experiencia de Torricelli: pues si la creyéramos, si fuéramos a prescribir el horror al vacío, ¿qué extraña filosofía tendríamos?». He hecho observar cuán vicioso es el razonamiento de Mr. Pluche1 con el fin de probar, en primer lugar, que si hay una revelación, ésta no se demuestra suficientemente por la sola autoridad de la Iglesia, y sin ningún examen de la razón, como pretenden todos cuantos la temen. En segundo lugar, para poner al abrigo de todo ataque el método de quienes quisieran seguir la vía que les abro, para interpretar las cosas sobrenaturales, incomprensibles en sí, mediante las luces que cada uno ha recibido de la naturaleza. La experiencia y la observación son pues las únicas que deben guiarnos aquí.

Son innumerables en los fastos de los médicos, que han sido filósofos, pero no en los filósofos que no han sido médicos. Aquéllos han recorrido e iluminado el laberinto del hombre; sólo ellos nos han revelado estos resortes ocultos bajo envolturas, que sustraen a nuestros ojos tantas maravillas. Sólo ellos, contemplando tranquilamente nuestra alma, la han sorprendido mil veces en su miseria y en su grandeza, sin despreciarla en un caso más de lo que la admiraban en otro. Una vez más, he ahí los únicos físicos que tienen derecho a hablar aquí. ¿Qué nos dirían los demás, y sobre todo los teólogos? ¿No es ridículo oírlos pronunciarse sin pudor, sobre un tema que no han tenido oportunidad de conocer, del que por el contrario han sido completamente apartados por oscuros estudios, que los han inducido a mil prejuicios, y por decirlo todo en una palabra, al fanatismo, que aumenta todavía más su ignorancia respecto al funcionamiento de los cuerpos? Pero aunque hayamos escogido los mejores guías, seguiremos encontrando muchas espinas y obstáculos en este camino.

El hombre es una máquina tan compleja, que en un principio es imposible hacerse una idea clara de ella, y, por consiguiente, definirla. Con lo cual todas las investigaciones que los mayores filósofos han hecho a priori, es decir, queriendo servirse de algún modo de las alas del espíritu, han sido vanas. Así, sólo a posteriori, o tratando de discernir el alma, como a través de los órganos del cuerpo, se puede, no digo descubrir con evidencia la naturaleza misma del hombre, pero sí alcanza el mayor grado de probabilidad posible a este respecto. Tomemos pues el bastón de la experiencia y abandonemos la historia de todas las vanas opiniones de los filósofos. Ser ciego, y creer poder prescindir de este bastón, es el colmo de la ceguera.

¡Cuánta razón tiene un moderno al decir que sólo la vanidad no extrae de las causas segundas el mismo partido que de las primeras! Se puede e incluso se debe admirar a todos estos bellos genios en sus trabajos más inútiles; los Descartes, los Malebranches, los Leibnizs, los Wolffs, y otros, pero, os lo ruego, ¿qué fruto se ha obtenido de sus profundas meditaciones y de todas sus obras? Empecemos pues, y veamos, no lo que se ha pensado, sino lo que es preciso pensar para la tranquilidad de la vida. Tantos temperamentos como espíritus, caracteres y costumbres diferentes. El mismo Galeno ha conocido esta verdad, que Descartes ha llevado lejos, hasta decir que sólo la medicina podía cambiar los espíritus y las costumbres con el cuerpo. Es cierto que la melancolía, la bilis, la flema, la sangre, etc., según la naturaleza, la abundancia y la diversa combinación de los humores, hacen de cada hombre un hombre diferente.